O aluno Paulo Jeremias Aires, da etnia Akroá Gamella, é o primeiro aluno a se formar em Arquitetura e Urbanismo na Unicamp. O estudante recebeu o diploma durante a colação de grau que ocorreu na sexta-feira, dia 23 de janeiro de 2025. Jeremias, o Jerê, teve uma carreira marcante dentro da faculdade, pontuando a sua história. Desenvolveu pesquisa de Iniciação Científica com bolsa Fapesp, “Você está em território Akroá Gamella”, que tratou da história oral dos anciões de sua tribo e recuperou práticas tradicionais que sofreram apagamento histórico, como o ritual do Bilibeu. Seu Trabalho Final de Graduação desenvolveu um projeto para cooperativa de Juçara e Guarimã, produtos cultivados em seu território que provém o sustento de sua aldeia, no Maranhão. Além das suas contribuições dentro do curso, Jerê engajou-se avidamente nas discussões estudantis sobre indígenas na Unicamp e além, tendo ido até Genebra para participar de discussões na ONU. Atuou como redator da Revista Sumaúma, cobrindo pautas relacionadas à COP30 diretamente de Belém. Jerê foi orador de sua turma. Em seu discurso, celebrou a inclusão e apontou que há um longo caminho adiante e fez a ponderação que “talvez a arquitetura seja o curso que mais se aproxima de uma vida em Aldeia: feita em conjunto, atravessada por conflitos e sustentada pelo cuidado.” A FECFAU parabeniza seu novo formando e a sua história inspira a escola a aprofundar a diversidade e buscar novas identidades na arquitetura e urbanismo.
Autoria: Rafael Urano Frajndlich (Coordenador do Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo)
Leia abaixo o discurso do aluno na íntegra:
Discurso - Aluno Paulo Jeremias Aires " Professores, funcionárias e funcionários. Familiares, amigas, amigos. Formandas e formandos. Boa tarde! Falar aqui é carregar uma responsabilidade que não cabe só a mim. Ela tem o tamanho de todas as trajetórias que se cruzaram neste auditório. Das vidas que, apesar de tudo, chegaram até aqui. Sim, houve noites sem dormir, projetos acumulados, choro, cansaço. Mas não é essa a verdade que nos reúne hoje. O que nos reúne foi o que nos atravessou e nos transformou. Somos a arquitetura da pandemia. A turma do tempo suspenso. Primeiro disseram que seria uma semana. Depois outra. E, quando percebemos, dois anos tinham passado. Vivemos um tempo estranho, em que tudo era provisório. Tudo, um “por enquanto” que não acabava. A casa virou sala de aula, escritório e, para muitos, um lugar de medo. Um tempo em looping. E, enquanto isso, a morte ganhava escala, rosto e cova. Aprendemos a conviver com a contagem, com a dor vivida em isolamento. Talvez o mais difícil tenha sido perceber como a normalização da morte anestesia a sensibilidade. E como muitos de nós foram obrigados a endurecer. Mesmo assim, seguimos. Entregando trabalhos. Cumprindo prazos. Tentando funcionar num mundo que parecia ter perdido o sentido. Talvez nesse momento tenhamos aprendido algo que nenhuma disciplina dá conta de ensinar. Que viver é um acontecimento frágil. Que a normalidade não passa de uma ilusão confortável. Há quem diga que o que separa a vida da morte é apenas um suspiro. Um intervalo mínimo entre o ar que entra e o ar que não volta. A vida é uma margem a ser alcançada?. Uma travessia frágil, instável, provisória? <<breve pausa, um respiro>> Passado esse tempo estranho, o tempo da pandemia, entramos nesta universidade sem saber o peso real de ocupá-la. Sem compreender de fato o que significa estar aqui. E, sobretudo, sem ainda dimensionar quem, historicamente, foi impedido de cruzar esses portões. E a minha presença, uma presença indígena, assim como a de corpos pretos, quilombolas, trans, dissidentes, não estava prevista neste projeto de ensino. Ela é recente. Ainda não assentou. Ainda provoca estranhamento. Há menos de uma década esta instituição passou a admitir, de forma estruturada, corpos como o meu. Um intervalo mínimo diante dos séculos em que este espaço foi organizado para apenas uma classe. Se só agora esses portões deixaram de funcionar como barreira social, o que significa ser o primeiro indígena arquiteto formado por esta universidade pública? O que significa, para mim, ser o primeiro Akroá Gamella a completar esse percurso acadêmico? Quantas vidas antes da minha foram mantidas à parte, não por falta de sonho, mas por falta de acesso? Ao lembrar que o Brasil nasce de uma ruptura entre a humanidade e o território, Ailton Krenak nos ajuda a compreender por que trazer nossos corpos para dentro da universidade é um deslocamento estrutural de recolocação da vida e de suas relações no centro do aprendizado. Aprendemos arquitetura. Mas aprendemos, sobretudo, convivência. A viver em grupo. A discordar. A negociar. A falhar coletivamente. Talvez a arquitetura seja o curso que mais se aproxima de uma vida em Aldeia: feita em conjunto, atravessada por conflitos e sustentada pelo cuidado. Por isso, precisamos perguntar: Que arquitetura estamos servindo? Uma arquitetura que acolhe ou que expulsa? O direito à cidade. O direito ao interior. O direito à moradia. Porque universidade pública não existe para se fechar em si mesma. Ela existe para devolver à sociedade aquilo que dela recebe. E, num país profundamente desigual como o nosso, isso significa assumir compromisso com quem sempre foi excluído. Nada disso foi dado. Sempre foi e tem sido disputado porque houve resistência. Porque houve questionamento. Porque houve enfrentamento dentro da própria universidade. Disputado nos coletivos, no Coletivo de Estudantes Indígenas, no Negrind, no Mobile, no Cacau. Esses espaços nos lembraram que a universidade não é neutra. Ela é atravessada por conflitos. Davi Kopenawa nos lembra que o céu começa a cair quando deixamos de escutar. Talvez nosso maior desafio, como arquitetas e arquitetos, seja reaprender a ouvir. Ouvir os territórios, as memórias: escutar quem nunca foi convidado a decidir. Quando essa escuta acontece, ela altera a forma como ocupamos os espaços, como nos relacionamos com os lugares que passamos a chamar de nossos. Agora atravessamos este campus com a sensação de que algo já nos atravessou primeiro. Não é mais apenas um conjunto de prédios, mas o rastro de encontros, escolhas e mudanças que aconteceram enquanto estávamos aqui. Um espaço que contém versões anteriores de nós mesmos, prestes a se dissolver. E o que virá? Não sabemos. Mas sabemos que será mais difícil conciliar os afetos, os encontros imprevisíveis, as mesas de bar. Foram seis anos. Não sabemos se é muito ou pouco. Sabemos apenas que foi o tempo necessário para nos tornarmos outros. Um pouco mais gente, um pouco mais bicho, um pouco mais bicha. Agora entram as urgências: emprego, aluguel, a própria vida E viver também é aprender a descruzar os próprios braços e os dos amigos. A vida adulta chegou. O que antes se resolvia em poucos passos agora se dilui em agendas, prazos e cobranças. Perdemos tempo juntos e ganhamos tempo sozinhos. E isso dói. Por isso que, ao pensar no futuro, o que vem primeiro não são os projetos, mas as pessoas. Quando tivermos 70 anos, do que vamos lembrar? De qual professor? De qual visita de campo? Qual projeto nos atravessou? Quais amigos ficaram? Um diploma muda muita coisa. Muda o modo como o mundo nos olha. Chegar até aqui foi um processo de tomada de consciência, sobre classe, território e privilégio. E essa consciência não se constrói sozinha. Cheguei aqui em uma turma que questionou esta universidade, este ensino, nossos professores, nossas estruturas. Uma turma que entendeu que amar a universidade não é aceitá-la engessada. E que, mesmo sendo uma pequena porção, produziu deslocamentos. Mudanças. Frestas. Que nunca percamos isso. Que sigamos questionando a vida, complexificando o mundo. Talvez seja por termos aprendido a questionar que agora não existam mais caminhos prontos. Chegamos ao depois. Antes, tudo tinha rota: educação infantil, ensino fundamental, médio, graduação. Agora, o que temos são escolhas; pós, mercado, o nicho que nos aceita, ou aquele que ainda precisaremos inventar. E junto com essas escolhas vem a dispersão. Os amigos já não estarão nos mesmos espaços. Não teremos a mesma rotina, os mesmos encontros espontâneos. Este final já começou a nos afastar. Mas talvez seja isso que nos torne mais gente: seguir em frente sem respostas prontas, levando conosco a capacidade de perguntar, e a coragem de não aceitar o mundo como ele está dado. O mundo lá fora não promete nada além de exigências. As incertezas continuam. E talvez sempre continuem. Mas levaremos conosco algo que este tempo universitário ensinou: a beleza de não caminhar sozinho. Mesmo que agora sigamos em direções diferentes, sabemos que um dia dividimos o mesmo chão. Que aprendemos a viver, a questionar e a cuidar juntos. Se a arquitetura é, no fim das contas, uma forma de sustentar a vida, que não esqueçamos o que nos sustentou até aqui. Que saibamos projetar condições de existência. Que saibamos escutar antes de desenhar. Cuidar antes de intervir. Permanecer gente num mundo que nos endurece. Porque viver como aprendemos, não é um gesto individual. É um processo coletivo. Obrigado!!"